No Brasil, mais de 31 milhões de pessoas vivem em
áreas sujeitas à desertificação, que tem início com a destruição da
caatinga, mau uso dos recursos hídricos e a degradação do solo
O fenômeno das secas no Brasil vem de tempos distantes e, o primeiro
período de estiagem pode ter ocorrido entre os anos de 1583 e 1585,
quando o padre Fernão Cardin relatou o que ocorria na região Nordeste do
País: “(…)uma grande seca e esterilidade na província e que cinco mil
índios foram obrigados a fugir do sertão pela fome, socorrendo-se aos
brancos”.
A seca nordestina já foi cantada em verso e prosa pelo Rei do
Baião, Luiz Gonzaga, e por outros compositores oriundos da mesma região,
mas a canção que retrata com um “q” de realismo o papel da sociedade e
sua in fluência, por vezes, nefasta ao meio ambiente, é “Sobradinho”,
letra composta por Sá e Guarabyra: “O homem chega, já desfaz a natureza /
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar / O São Francisco lá
pra cima da Bahia / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar / E
passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que dizia que o sertão
ia alagar / O sertão vai virar mar, dá no coração /
O medo que algum dia
o mar também vire sertão”.
Os longos períodos de
estiagem não castigam apenas terras
brasileiras. Em 1930, os
três anos de seca no meio oeste americano
agravaram a degradação da terra. A partir dali deu-se início a uma série
de estudos e pesquisas acadêmicas voltadas ao conhecimento dos
processos de deserti ficação. Trinta anos mais tarde,
o sahel
africano é castigado pelo mesmo fenômeno, que resulta em
mais de 500
mil mortes.
A devastação dos recursos naturais e um modelo de
desenvolvimento equivocado, é apontado por especialistas como uma das
causas daquela seca.
No final da década de 70, após algumas convenções
internacionais, foi observada a necessidade de implantar uma política
específica para as regiões semiáridas do mundo, tanto por suas
características ambientais como pela situação geral de suas populações.
Mas somente durante a Rio 92 os chefes de estados somados a
organizações que trabalham com o meio ambiente evidenciaram o fracasso
dos programas internacionais de combate à desertificação e decidiram
mobilizar uma
Convenção de Desertificação, que visava o comprometimento de todas as nações, particularmente dos países ricos, com a questão da seca.
Definição do termo
De acordo com o texto da Convenção das Nações Unidas de Combate à
Desertificação (UNCCD),
desertificação é a degradação da terra nas
regiões áridas, semiáridas e subsumidas secas, resultante de vários
fatores, entre eles as variações climáticas e atividades humanas. O
mesmo documento define que a degradação do solo é a perda ou redução da
produtividade econômica ou biológica e da complexidade dos ecossistemas,
causadas pela erosão do solo, deterioração das propriedades do solo e
perda da vegetação natural.
Em “O Fenômeno das Secas no Nordeste do Brasil: uma abordagem
conceitual”, artigo baseado no IX Simpósio de Recursos Hídricos do
Nordeste, o professor e especialista em Recursos Hídricos da Agência
Nacional de Águas (Brasília- DF) Marcos Airton de Sousa Freitas explica
que grande parte de nosso planeta pertence à denominada área de risco à
seca. “São regiões onde o montante precipitado aproxima-se do limite
permitido à prática agrícola, aponta, e cita Sahel, o nordeste do
Brasil, grande área da China, o platô Dekkan, na Índia, e parte da
África do Sul como exemplos.
De acordo com o autor, nas décadas mais recentes,
aparentemente
as secas têm se apresentado com uma frequência e uma intensidade cada
vez maiores em grande parte dos países, o que pode ter relação com o
fenômeno das mudanças climáticas.
Freitas lembra que consideráveis áreas
das Américas do Norte e do Sul, Austrália, Europa e Ásia foram
atingidas por secas extremas, acarretando relevantes prejuízos
econômicos, sociais e ecológicos. “Na Austrália, por exemplo, no período
de cerca de 100 anos, compreendendo de 1864 a 1965, oito períodos de
secas extremas foram registrados, os quais, em média, apresentaram uma
duração de cinco anos”.
No Brasil
Sobre o Brasil, o especialista em Recursos Hídricos relembra que
os últimos períodos de secas no nordeste brasileiro foram de 1981 a
1983, de 1992 a 1993 e do ano de 2002 a 2003 (em 2012 a região também
sofre com a estiagem). As consequências da secas extremas durante a
década de 70 e 80 foram a fome e o êxodo da população rural em direção
ao sul do País ou às grandes metrópoles do nordeste, como Fortaleza,
Recife e Salvador, todas localizadas no litoral. O “Polígono das Secas”
abrange uma área de cerca de 940.000 km², envolvendo partes de quase
todos os estados do Nordeste. Freitas observa que a agricultura ainda é a
base da economia da região e que os períodos prolongados de secas
reduzem a umidade do solo, acarretando enormes perdas às culturas. “A
perfeita compreensão do fenômeno das secas faz-se, portanto,
extremamente necessária para o uso sustentável dos limitados recursos
hídricos da região”, aponta.
Entre 2006 e 2007 foram realizados estudos sobre os impactos
das mudanças climáticas globais para diversas áreas do território
brasileiro, como Amazônia brasileira, nordeste Brasileiro, Pantanal e
Bacia do Prata, evidenciando as anomalias de chuva e temperatura, assim
como balanço hídrico para o século XXI. Um dos apontamentos definidos
nesses estudos foi uma diferença básica entre a seca e outras
ocorrências naturais como cheias, furacões e terremotos, que iniciam e
terminam repentinamente e se restringem, normalmente, em uma pequena
região. Já a estiagem, quase sempre, tem um início lento, uma longa
duração e pode alcançar uma área extens
Maurício Barroso